O fato a quero chegar é que o livro trata de um assunto que é um dos grandes tabus de nossa sociedade, a relação de um homem no auge de seus quarenta anos com uma garota muito mais nova e que, apesar de todo o charme emanado por ela, ainda está no início de sua adolescência. Vale lembrar que o livro é narrado em primeira pessoa e, com isso, não podemos deixar de vê-lo através de um claro olhar, seja ele doentio ou não, de Humbert. As imagens do real podem ser deturpadas pela atração que esse "senhor" sentia pela jovem Dolores, assim como suas próprias atitudes. Mas não é nesse assunto que desejo adentrar.
Nabokov nos dá um clima tenso, misterioso, obscuro, onde o personagem principal muitas vezes é um transgressor da lei, da moral e dos bons costumes, mas o perdoamos e o entendemos a todo instante, pois afinal seus sentimentos estão expressos ali, estão escritos e descritos em seus pormenores. Humbert é, de fato, um apaixonado, e Lolita é sua aparição, seu desejo, mas ao mesmo tempo, sua incerteza. É, talvez, por escrever sobre um tema que pode gerar conflitos que Nabokov consegue nos dar essa ambiguidade, onde temos o mistério, o suspense e também essa paixão, esse amor patológico e platônico.
No filme Lolita (1962), de Stanley Kubrick, não há ambiguidades, não há suspense, nem tensão. Os personagens do livro estão agora estigmatizados, estereotipados. A história perde na sua ambientação, no clima de amor e mistério que o livro trata tão profundamente. Não há patologias nessa obra de Kubrick, talvez por estar ainda no início da sua carreira, sem uma linguagem já definida, já delineada, que o consagraria como um grande diretor posteriormente em Laranja Mecânica, O Iluminado e 2001 - uma odisséia no espaço. Seria bom que um pouco da doença dos jovens ingleses de Laranja Mecânica pudesse ser emprestada ao Humbert de Kubrick, que um pouco do mistério de De olhos bem fechados pudesse ser inserido em toda a trama e que o forte suspense de O Iluminado tomasse algumas cenas entre Humbert Humbert e sua Lolita.
Receio que Kubrick estava em um momento de influências externas e de um cinema ainda padronizado, regulado ainda pela indústria cultural dos Estados Unidos, da qual ele só se libertaria anos mais tarde. Sua linguagem se desenvolve em seus primeiros filmes, mas ainda não está fixada. O roteiro do filme em questão passa longe da história do livro, tanto em seu enredo, como também no já discutido universo em que vivem os personagens, seus sentimentos e, inclusive, os próprios personagens, que ganharam uma atuações rasas e institucionalizadas, numa forma de mastigar suas almas em interpretações clichês dirigidas a um grande e "burro" público. A subjetividade do sentimento humano deveria estar inserida, deveria estar impressa nas imagens filmadas por Kubrick, apesar de ter ele toda a liberdade de adaptação de uma obra a maneira que lhe foi interpretada, mas, infelizmente, o convencional não é ultrapassado. O filme, por fim, é raso, estreito. Kubrick sentiu medo de afogar-se ou então sentiu um pudor que lhe trouxe a censura.
A nível de citação, já que o que escrevo parece muito mais uma defesa do conteúdo de um livro do que uma crítica de cinema, podemos relembrar que Lolita ganhou uma segunda versão com mesmo nome em 1997, do diretor Adrian Lyne (9 e 1/2 semanas de amor; Flashdance; Proposta Indecente), que teve a frente um Jeremy Irons que soube interpretar um Humbert muito mais fiel àquele de Nabokov, além, claro, daquele mistura, falada anteriormente, de mistério, patologia e paixão, que a versão anterior não soube dar. Lolita, sua mãe e o excêntrico Clare Quilty, finalmente ganharam a profundidade que lhes faltou anteriormente.
Outras críticas:
http://museudocinema.blogspot.com/2007/01/lolita.html
http://veja.abril.com.br/020998/p_144.html
http://www.cinepop.com.br/moviepop/remakes.htm
http://museudocinema.blogspot.com/2007/01/stanley-kubrick.html